Boitatá
No folclore brasileiro, o Boitatá ou Mboitatá é uma gigantesca cobra-de-fogo que protege os campos contra aqueles que o incendeiam. Vive nas águas e pode se transformar também numa tora em brasa, queimando aqueles que põem fogo nas matas.
O boitatá está associado a fenônemos luminosos resultantes da decomposição de matéria orgânica, à maneira do fogo-fátuo.
A palavra, de origem indígena, tem o significado de cobra (mboi) de fogo (tata).
Na obra Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto, há um conto com este nome que descreve bem o que seja a lenda:
Trecho:
E vai, como a m'boiguaçu não tinha pêlos como o boi, nem escamas o dourado, nem penas como oavestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como a anta, vai, o seu corpo foi ficandotransparente, transparente, clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foramesmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boiguaçutoda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos…
VII
Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela vez primeira viram a boiguaçu tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamam-na desde então, de boitatá, cobra de fogo, boitatá, a boitatá!E muitas vezes a boitatá rondou as rancherias, faminta, sempre que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.
E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande corpo de serpente, transparente — tatá, de fogo — que media mais braças que três laços de conta e ia alumiandobaçamente as carquejas... E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo, pois as suaslágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os olhos e a boitatá ainda cobiçava os olhos vivos dos homens, que já os das carniças a enfartavam...
VIII
Mas, como dizia: na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da boitatá, e era por ela que o téu-téu cantava de vigia, em todos os flancos da noite.Passado um tempo, a boitatá morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidosencheram-lhe o corpo mas não lhe deram sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos…Fonte:
LOPES NETO, J. Simões. Contos gauchescos e lendas do sul. 3 ed. Porto Alegre : Globo, 1965.LENDAS DO SULJoão Simões Lopes Neto
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