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Rogério Mourtada

O trabalho de Rogério Mourtada (1977) sustenta-se sobre três pilares, sendo que o último deles diferencia este artista não apenas dos gravadores seus contemporâneos, mas da própria História da gravura desenvolvida na (e a partir da) Europa.

Primeiro, a coerência entre a técnica, o material escolhido, e a temática que desenvolve.

Segundo, matrizes em gesso – material de pouca resistência para a impressão precisa de um mesmo entalhe diversas vezes.

Terceiro (e talvez o mais desconcertante para muitos), a utilização dessas matrizes em sentido diverso daquele tradicionalmente assumido pela gravura – de multiplicar um mesmo trabalho, de reproduzir um mesmo discurso plástico/gráfico fechado.Rogério transforma as impressões de suas matrizes de gesso em “palavras”, “ideogramas”, “pictogramas”, “signos”, “anotações mais ou menos breves” que – utilizadas sempre em novos contextos criados com o auxílio da pintura e do desenho; de pontos, linhas e planos; de massas compactas e transparências – se acoplam, se misturam, se baralham e se reorganizam criando um novo, mantida a visibilidade/identidade original da impressão que permanece identificável, sendo (em) outra coisa.É bem verdade que, para não irmos muito longe, aqui mesmo no interior de São Paulo, há aproximadamente 60 anos, Cândido Portinari já coloria a lápis de cor pelo menos sua série de xilos sobre o Quixote. Mas este procedimento ainda estava ancorado de certo modo na tradição das gravuras aquareladas, comuns sobretudo no século 19.Não é menos verdade também que os britânicos Jake e Dinos Chapman, em 2003, surpreenderam a crítica internacional com suas intervenções em aquarela sobre uma tiragem completa de 80 gravuras originais do espanhol Goya, que compõem a série “Desastres da Guerra” (1810-1815).

O tema de Mourtada é o mundo da exclusão. Os excluídos pela miséria, ou pelos padrões estabelecidos de normalidade – os diferentes. Mas diferentes também miseráveis. Numa linguagem menos glamurizada: o tema de Rogério são os moradores-de-rua, pivetes, prostitutas-meninas, prostitutas em geral, adolescentes grávidas, vítimas do crime organizado e da polícia, idosos, mendigos, homossexuais, xifópagos, portadores das mais diversas deficiências físicas e mentais, dependentes químicos, índios, negros e mestiços – todos aqueles para os quais os neoliberais garantem não haver riqueza suficiente no mundo. Todos aqueles que, segundo essa doutrina, estão fora dos 30% a cujo bem estar dirigem os esforços de suas políticas econômicas. Os condenados à morte.Mourtada os conhece bem. Não apenas tanto quanto nós que os vemos (muitas vezes sem enxergar) a cada esquina. Durante cerca de um ano, ele trabalhou ministrando oficinas de artes plásticas para crianças e adolescentes de rua, num projeto desenvolvido por uma organização não-governamental de Campinas (SP). Ali a regra era a de muitos dos seus alunos desaparecem das oficinas, para em seguida serem encontrados assassinados por grupos de extermínio, por outros pequenos bandidos, ou simplesmente recolhidos em casas correcionais ou prisões.Antes, já fizera uma incursão em experiências com a técnica do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Nesse roteiro Mourtada – que abandona a Faculdade de Direito aos 21 anos para se tornar artista plástico – seleciona materiais, técnicas e constrói seu programa de trabalho e linguagem.

O gesso surge da necessidade não apenas de um material acessível, barato, onde gravar uma matriz, mas de um material dúctil para cuja gravação possam ser criadas pelo próprio artista ferramentas a partir de arames, metais variados, velhas lâminas e até madeira. A escolha do suporte (cartão duplex preto) segue a mesma diretriz, bem como a definição do guache enquanto tinta de impressão, desenho e pintura. Para que todos os que queiram possam gravar.

“Se posso tomar um homem por tema, esse mesmo homem tem o direito de ser sujeito da mesma ação que desenvolvo quando o tomo por objeto. E esse não é um problema apenas de distantes secretarias de educação ou de cultura, ou de remotos ministérios”, diz.

Parece-nos esta, a ética fundamental que substituirá/aprofundará aquela dos bons gravadores modernistas, que se ancorava antes de tudo no acesso e na apropriação pública do múltiplo/igual. Será no quadro da ética que estabeleceu para si, que Rogério balizará as experiências a que dará curso, garantindo-lhes e definindo-lhes o conteúdo filosófico e os primeiros contornos da racionalidade que perseguirá.Por outro lado, aos poucos – pois nada acontece de uma única vez – o autor vai percorrendo as diversas iconografias construídas em busca de firmar uma nova forma, uma nova figura. Aqui um Curupira ou um Saci como ponto de partida. Totens africanos cedem lugar a contornos de Botticelli que depois são substituídos por elementos com raiz em culturas ameríndias pré-colombianas. Formas orgânicas e, de repente, a intervenção de elementos geometrizantes. A pincelada construída, organizada dá espaço ao gestual. Mas as incisões precisas a ponta-seca, quando tudo ameaça descambar definitivamente para o intuitivo e/ou espontâneo, como um “piston de gafieira”, bota as coisas no lugar: o que está fora não entra e o que está dentro não sai. O que está em cima não voa, o que está embaixo não cai.De qualquer modo, porém – e aqui reside outra importante grandeza do trabalho de Rogério Mourtada – mesmo que seu tema sejam os condenados à morte, ao extermínio (e conseqüentemente à vala comum), seu programa exclui qualquer populismo, qualquer rebaixamento da linguagem plástica, qualquer miserabilismo. E é este compromisso que não apenas faz de Mourtada um artista plástico, como confere ao seu objeto temático dignidade e força. Mourtada recusa qualquer comiseração – antes, exige respeito aos personagens. No lugar do drama, o trágico.


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